O escrito
O poema escrito é o poema que já escrevi,
em uma bela caderneta de papel passado
com emblemas de guerra e
pessoas em estado líquido.
Mas o poema escrito
já não estaria escrito em minha roupa,
em minha face de sardas ou espinhas,
em meu cabelo sem pente ou sem fio?
Escrito no corpo da amada,
no beijo de Esmeralda, nos passos do sapato e
nas pisadas do salto alto.
Na bala que matou João.
Escrever, e que enigma é escrever,
face de muitos lados e de ocultos lábios.
Pensei que agora escrevi,
e já estava escrito em teus olhos,
sob color de poema e
canto de úmido pranto.
Poesia escancarada sobre meu pálido rosto
e entre minhas mãos trêmulas.
E quanto fel nos custa a publicação!
Meus amigos, o poema está em mim,
em vossas mercês, vossos passos,
vossa boca, vossos movimentos de mão.
Não há poema que inda não esteja escrito:
não penetras surdamente no reino das palavras;
és bento de poesia e melodia,
canto e encanto.
Mas estas ― palavras de mil faces ―
nem sabem de ti, nem se interessam por ti,
material de carne e osso
mais adereços estúpidos.
Também não dependem de ti;
o defunto na cova e o rato do restaurante
esbanjam mais poesia que teu suor
e teu corpo vivo exposto ao sol de Copacabana.
Mas veja, não interpreto estas melodias
n’uma folha amarela
com caneta lustrada de deputado:
não psicografo; copio.
Copio de ti, copio de mim,
copio dos braços, dos abraços,
copio das moças com suas roupas,
sem suas roupas.
Copio, e que vergonha de mim!
Mero copiador com mãos apostas
n’uma humanidade cega,
cega de tudo. Cega sem fim?
E copiando, desenho a rosa,
dou asas ao pássaro,
fujo do jornal. Apenas copio,
que grande desastre sou!
Talvez um dia, sentado e sem companhia,
já um velho rapaz portador de rugas,
diga em surda voz palavras fúnebres:
Nunca escrevi!
@rafazz_